Nunca é tarde. Só às vezes

Decidi cursar jornalismo. E minha classe teve sorte com os professores. Entre verdadeiras lições de história, um escritor ensinando a escrever e jornalistas nos mostrando como relatar e descrever, temos uma artista que nos ensina a fotografar. Com ela estamos aprendendo a olhar, ver e enxergar.
Para um dos trabalhos eu precisava tirar fotografias usando molduras. Lançando mão de artifícios como cantos de paredes, janelas, portas, edifícios, placas ou galhos de árvores, era necessário definir melhor e menor os espaços. Não fosse por mais nada, este trabalho já teria servido para que eu conhecesse melhor minha casa e meu bairro. Descobri lugares lindos, a meia quadra de onde moro. Casas antigas, árvores seculares, ângulos e composições que levarei comigo para sempre. Na memória, transformado em sentimento, e em filme, transformado em documento. Nada mais ocorria no meu bairro sem que eu estivesse atento, analisando enquadramentos, luz, cores e tons.
E não foi com nada menos do que tristeza que uma manhã me vi parado em frente à um antigo sobrado. O tapume já estava com uma certa altura. O teto já havia sido derrubado. Todas as janelas removidas.
Ali havia sido a casa… não, o lar, de uma das minhas tias mais queridas. Ninguém sabe, mas sempre julguei também um pouco meu aquele lar. Quantas noites de ano novo não passamos ali. Quantos anos foram planejados ao abrigo daquelas paredes. Quantos anos foram lamentados sob aquele teto. Entre aquelas portas e janelas. Naquelas molduras. Ao longo do tempo, como a vida mudou. Infância, adolescência, vestibular, namorada, noiva, esposa, mudança de carreira, problemas, dificuldades, felicidades. Experiências.
Fiquei ali, no meio da calçada, parado, sorvendo o finzinho da casa, atrapalhando quem não tinha tempo ou não queria ver. Muito menos enxergar. Mas eu entendi. Não era o passado deles que estava sendo demolido. Era o meu. Eram as minhas molduras que deixavam de existir.
Mesmo depois de entender a diferença, continuei ali por um tempo olhando e vendo não o lar, mas o que havia sido a casa de um parente ser demolida. Foi quando o aprendiz de fotógrafo “voltou” e então compreendi. E enxerguei. O que restava da janela na parede do que havia sido a sala, era uma moldura. Perfeita. Através dela, enchendo, explodindo por todo o enquadramento do que poderia ser uma foto maravilhosa, um edifício novo. Alto, lindo. Metal e vidro. Insinuando-se, nascendo do e pelo velho.
Minha máquina fotográfica… em casa. Filme? Tinha que ser preto e branco. Corri para o meu lar, onde estão as minhas molduras, e terminei o filme colorido. Precisei pegar o carro e ir comprar outro preto e branco. Carreguei a máquina, voei para o local.
O tapume estava alto. Em três horas não existia mais nada. Só a memória e o sentimento. O tempo roubou o documento. Às vezes, até para uma foto é tarde. Só dá tempo de olhar e ver e enxergar. Às vezes… mas só às vezes.