Quando meu irmão era pequeno, sofria nas mãos do tio Juca. Uma vez, os insultos viraram briga, que mamãe encontrou o caçulinha de quatro anos afogado com um cigarro de palha. Mau exemplo o tio Juca: prendia os rabos dos gatos, beliscava e mordia as crianças, falava palavrão e, crueldade das crueldades, queimava a pele dos meninos com a ponta do cigarro.
Lembro tão bem que íamos chegando e mamãe já avisava: “Não saiam de perto de mim!” Fora os puxões de cabelo e eu tinha tantos cachos , tio Juca nunca fez nada comigo. Minto! Ele mordia meu braço e falava: “Olhaí uma tampinha de garrafa!” Mas só. Talvez porque eu fosse menina quieta e delicada, talvez porque abrisse a boca por qualquer coisa, talvez porque não arredasse mesmo pé do lado de mamãe, tamanho o medo.
A maior vítima era sempre o meu irmão, uma peste por natureza, que nem ligava para os avisos e lá se ia, quintal a fora, para subir nas árvores, ver o viveiro (tio Juca tinha uma enorme coleção de pintassilgos) e correr por entre o cafezal (dá pra acreditar que nem era o sítio, era só a casa da cidade?).
Ontem foi domingo e fomos lá. A grade marrom e a cerca viva, o jardinzinho da entrada, a varanda cheia de cadeiras de descanso, a grama japonesa, as janelas, a garagem e os apetrechos dos sítios, a horta atrás da casa e até o pé de tangerina, tudo continua como antes.
Tio Juca também está lá. Fortão ainda, com setenta e três anos e seu eterno cigarro de palha esquecido no canto da boca, lendo jornal às custas de um bom par de óculos, já não corre atrás dos netos e bisnetos para assustá-los.
O tempo é implacável, penso. E estendo a mão num cumprimento, enquanto tio Juca, calmamente, retira os óculos com a outra mão e, como quem não acredita, franze a testa e fixa os olhos azuis já não tão brilhantes: “Como você tá feia, menina!” Ganho um puxão de cabelo.
Logo, então, mudo de idéia: talvez o tempo não seja tão implacável assim. Mesmo que a terra engula todas as entranhas, sempre haverá alguém para contar um pouco da lenda chamada “tio Juca”.
