Acordei no sofá, onde me deitara para ver tevê no início da noite. Tudo quieto, único ruído audível vinha da rua, da picape barulhenta dos guardas fazendo a ronda pelo condomínio. Olhei pelo vidro da janela grande sem ter a menor idéia de que horas poderiam ser. Entrei no quarto e olhei a luz verde do relógio de cabeceira: três e vinte e nove, adiantado uns dez minutos pelo menos, eu sabia. Ocorreu-me perguntar por que certas pessoas têm a mania doida de manter o relógio adiantado. Freud deve ter uma explicação convincente para isso. Suponho tratar-se de alguma forma de enganar a si mesmo, vencer o tempo, pôr-se adiante dele, ter a sensação de estar com tempo de sobra, talvez. Eu não faço isso, meus relógios têm de andar em cima da pinta.
Lembrei-me de um amigo que, mesmo no horário de verão, mantinha o seu relógio na hora certa. Não aceitava de forma nenhuma trapacear o tempo. Quando alguém o advertia de que o seu relógio estava errado, ele dizia que não, que estava certo e que, para todos os efeitos, para estar no mesmo passo que os outros ele aprendera a somar: era só acrescentar uma hora ao que mostrava o relógio, e estava tudo certo. Esse era realista demais.
Lavei minha cara de ontem, escovei os dentes, e desci sem saber o que ia fazer. Não há nada nem ninguém vivo a uma hora dessas. Pus água para ferver, a mesa posta para o café da manhã apressado. Se não me engano, hoje é segunda-feira, não sei direito, só sei que são três e quarenta e cinco e que o mundo está silencioso, a exceção do motor doente crônico da picape e suas luzes piscantes passeando pelas ruas curtas, nada mais se move. Liguei a tevê e percorri todos os canais, alguns fora do ar, outros apresentando programas religiosos. Imagino que a essa hora da madrugada não haja tantos fiéis dispostos a se salvar, certamente preferem dormir até às sete a ter a alma eternamente livre do fogo do inferno.
Faz frio embora ainda seja outono.
Parei num filme antigo em branco, cinza — vários tons de cinza — e preto: John Wayne, moço ainda, candidato a prefeito de uma cidade que sofreu um abalo sísmico, há chamas, escombros e fumaceira pra todo lado. A mocinha é bonita, temporariamente paralítica, uma das tantas vítimas do terremoto, presumo. O vilão de bigodinho, casaca e colete cheio de brilhos. Um triângulo amoroso à moda antiga. Não vi o começo, mas já sei como será o fim: nos filmes antigos o mocinho sempre ganha e tudo termina num beijo. Nos entremeios do enredo haverá intrigas, os dois quase se perderão, John Wayne enfrentará o vilão numa luta aparentemente impossível de vencer, mas triunfará. Os socos passam a pelo menos meio metro do oponente, não têm realismo nenhum, mas têm um efeito devastador, mais no sentido moral do que físico, pois nem desmancha o impecável cabelo do elegante adversário – sempre dono de um salão de jogo. O estrago máximo é o chapéu caído, que a câmara focaliza em close, enquanto o herói se afasta lentamente para ser glorificado pela platéia embevecida.
John Wayne é frio, imbatível, espirituoso (no padrão americano, é claro), levemente sarcástico, os gestos decididos como convém a um protagonista destemido, o andar miúdo apesar do agigantado do seu tamanho. O olhar penetrante — o mesmo olhar insensível e gélido que Clint Eastwood usa até hoje. A falsa indiferença a tudo que o cerca. John Wayne era capaz de ser ele mesmo em qualquer papel. Imutável na sua plana interpretação. Na verdade nunca foi um ator, interpretava a si mesmo o tempo todo, como vaqueiro valente, soldado invencível, intrépido pioneiro ou centurião romano. Sempre o mesmo John Wayne, que fazia parte do cotidiano americano assim como a paisagem colossal das Montanhas Rochosas ou a sombra comprida do Empire State.
Nunca vi no seu olhar uma nesga que fosse de apreensão ou de medo, jamais uma lágrima rolou na sua face ou, por descuido, deixou transparecer alguma leve inflexão de desespero na sua voz. Era o símbolo vivo do pioneiro americano, do vencedor, da infalibilidade. O homem em quem todos podiam confiar cegamente. Como todos gostariam de ser, até nós.
Coei o café enquanto via John sofrer um pouco ao ver a mocinha se engraçando com o bandido, iludida por sua roupa elegante, sua bota lustrosa, seus ares finos e seu anel de brilhante no dedo mínimo. John, como todo mocinho que se preza, mantinha um ar distante, como se aquilo não fosse com ele, mas por dentro sofria. Sisudo, calado. Morria de ciúmes, embora jamais demonstrasse. John não interpretava, ele vivia a sua própria personagem.
Sentei-me à mesa e montei cuidadosamente um alentado sanduíche de presunto. Preparei-me com gosto para a primeira mordida, mas contive-me momentaneamente, o sanduíche parado a meio caminho da boca. Era um momento decisivo na trama do filme: John se aprontava, com a sua habitual frieza, para um duelo mortal contra alguns dos asseclas do vilão ( John só enfrentaria o vilão no final, logicamente). Mantive o sanduíche suspenso no ar, aguardando o desfecho do combate – o resultado eu já sabia, mas queria ver como ele se safaria da enrascada em que se metera. Os facínoras eram vários, com ares ameaçadores, as mãos inquietas nas coronhas das armas. Espalharam-se em frente ao saloon para dificultar a ação de John, mas mesmo assim foi fácil. Ao primeiro tiro John se arroja ao chão e dispara sucessivamente, sem perder um único tiro. Um a um os bandidos vão caindo fulminados pela sua infalível pontaria. John era imbatível, eu não avisei?
Tentei contar os tiros para conferir ao menos isso, mas na fuzilaria, em meio a tanta fumaça e gritos, me perdi completamente. O último patife John derrubou do cimo da escada com um tiro impossível. Um campeão olímpico não faria melhor. O bandido estatelou-se estrepitosamente no chão, levando consigo o corrimão de madeira. John se levanta lentamente, o revólver ainda fumegante na mão, bate a poeira e, com enorme indiferença, quase uma expressão de nojo, passa por cima dos corpos estendidos no chão e apanha o seu chapéu. Lança um olhar enfastiado em derredor. A mocinha sai do meio da pequena multidão que medrosamente presenciara a cena e lança-se aflita na sua direção. Abraçam-se, e então ela nota uma mancha de sangue no seu ombro (o mocinho invariavelmente é ferido no ombro, isso é uma regra fundamental). Claro que ela, muito apreensiva, se dispõe a fazer o curativo no valente herói, abrindo o caminho para o primeiro beijo. Um beijo inocente, quase um roçar de lábios. Nada parecido com os atuais beijos de língua vistos na novela das seis.
Meto os dentes no meu sanduíche, com um pouco de raiva.
John triunfara mais uma vez. John era foda! Eu não disse? Futuramente, Rambo invejaria a destreza e a coragem de John, que só dispunha da sua força e habilidade inatas. Nada de tecnologia de ponta, facas multiuso, explosivos plásticos, pistolas automáticas ou arcos de fibra de carbono. Com John era no braço ou no velho Colt 45 de ação simples, nada além disso. John, definitivamente, era mesmo foda!
O fim não assisti, mas todos sabemos como terminam os filmes de John. John é um enorme trator de esteira, passa por cima de tudo sem pestanejar. Nada nem ninguém o detém. Pobre do bandido, mal sabe o que lhe reserva o final. John, todavia, não é vingativo, o que o move é apenas o seu apurado senso de justiça.
O sol, timidamente, começa a nascer. O enorme vulto de John se desfaz com a claridade avermelhada que surge atrás da montanha.
Vou tomar um banho quente e me vestir pra esta segunda-feira, os sonhos se esvaem com a chegada do dia.
The end. Quanta emoção!
