Sinal Vermelho

Hoje de manhã, parado aguardando o semáforo abrir, eu observava o mendigo habitual no cruzamento da praça. Ele pede moedas na janela dos carros, tenta vender umas canetas vagabundas, as mesmas de sempre, que ninguém leva. Dão-lhe as moedas e recusam a caneta. Acho que nem têm carga. Fiquei vigiando o sujeito: moço – não mais que trinta anos, se tanto – sujo, alto, fedido, magro e barbudo. As pessoas lhe dão o dinheiro rapidamente para se ver logo livre do incômodo indivíduo, ou apenas fazem um gesto de repulsa, escorraçando-o com brusquidão.
Por um instante, apenas o tempo do sinal se abrir, fiquei pensando no desperdício que era aquela vida inútil, uma máquina que apenas cumpria as funções básicas: comer (quando possível), andar, respirar, falar poucas palavras, e pedir, sempre pedir, todos os dias daquela merda de vida a mão estendida. O cérebro inerte, emitindo apenas os comandos essenciais.
No entanto, ele tinha algo que eu já não tenho: a juventude, o vigor físico – ainda que combalido pela miséria – uma vontade besta de continuar vivendo pra nada. Achei injusta a vida. Eu tenho tanta coisa que gostaria de fazer, tenho quase tudo o que quero, tenho sonhos, metas, mas não tenho o tempo, esse maldito e volátil ingrediente que a ele sobra.
Pensei numa troca de corpos, idéia boba, nada original, mas tentadora: eu daria a ele o meu, envelhecido, flácido, cabelos embranquecendo, movimentos limitados pela musculatura gasta, e tomaria o dele, no estado em que se encontrava: encardido e roto, algumas cicatrizes – provavelmente de brigas entre mendigos por qualquer coisa de comer – as marcas indeléveis da sarjeta. Poderia lhe voltar uma boa parte em dinheiro, até meu carro, não tudo o que tenho, mas quase tudo. Preservaria um pouco só pra recomeçar, pra não ficar na mesma situação que ele. Não quero também o seu cérebro nem o seu coração. O cérebro não, este eu mantenho o meu, com minhas memórias, pensamentos (mesmo os mais estúpidos, mas meus). O coração com os meus sentimentos, alguns loucos, mas imprescindíveis à continuidade da minha vida. Sem eles eu não vivo.
Fiquei imaginando a situação. Será que valeria a pena? O corpo dele, tudo indica, é recuperável. Uma boa alimentação, cama macia, roupas novas, alguns exercícios e estaria novo em folha. Mas será que eu conservaria os meus amigos, minha amada, minha vida, com o meu corpo novo? Será que eu não seria discriminado por causa da minha nova faixa etária?
As dúvidas me assaltam, por instantes vejo-me na iminência de uma decisão sobre qual eu nunca havia pensado. Vacilo diante da desconhecida sensação de retroagir no tempo. O velho e impossível sonho da eterna juventude ressurge com seus inescrutáveis prós e contras.
Ele se aproximou com a mão aberta na minha direção, despejei na sua mão estragada as moedas todas que eu tinha. A barba suja, o aspecto desgrenhado, seu cheiro azedo, tudo a incomodar os passantes. Quase lhe perguntei se estaria interessado num negócio de ocasião.
Mas o sinal abriu, e eu acelerei meu carro …