Um ipê e três leitores

Machado de Assis, no Prólogo ao Leitor, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, diz ter no máximo dez (ou talvez cinco) leitores. Eu brinco com os amigos e digo ter duas ou três pessoas que me lêem, e não me incluo entre elas uma vez que ­ hábito antigo ­ nunca releio o que escrevo depois de publicado. Nem em papel, nem online.
Uma espécie de vergonha me toma, acho que é pudor mesmo, o que vão pensar de mim meus amigos e alunos? Minha família?
Dois leitores? Talvez um , talvez nenhum. Mas por que será que tinha começado a dizer isso?
Devaneio diante do teclado: uns fazem música, eu faço palavras. Toco um pouco deste impossível piano. Eu também, tanta gente também e todos os dias. A casa hoje está estranhamente cheia de silêncios; tomara, então, que ninguém me telefone, pergunte alguma coisa, toque a campainha ou venha me visitar. Em dias assim, flutuo, cercada que sou constantemente por gente, vozes, fatos, coisas. E, veja você, cá estou eu devaneando outra vez.
Reatemos o fio: nesses dias assim, especiais, flutuo. Se toca a campainha, se toca o telefone, o silêncio se parte, a louça cai do armário, as roupas encolhem, a pia fica transbordante de coisas por lavar. É como se isso fosse. Perco o jeito, é conversa truncada: não reata nunca.
Então, senhoras e senhores, meus três leitores, devo anunciar solenemente que hoje pela manhã, em meio à neblina, vi um ipê-roxo. Nesta paisagem de inverno, seca e suja nas ruas, em meio à dor do mundo e à fome das pessoas, ao trânsito, à má educação, necessidades, à vida que pulsa, ao olho que vê, lá estava, belo e solene como uma declaração de amor, o meu ipê.
Pensei comigo: será? O mundo é tão cheio de claros e escuros, há sombras feias do fel que os homens tramam, mas há os ipês, os lindos ipês que anunciam algo que a terra em seu ventre confecciona milímetro a milímetro para, depois, explodir assim em flores, assustar assim os olhos, e nos encher de esperança.
Diante do ipê, esqueço-me de que Machado dedicou suas Memórias Póstumas “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver…” Machado conhecia os ipês, esses, os roxos, que ensaiam a primavera em pleno inverno; os outros, amarelos, os brancos que deverão antecedê-la por pouco, pétalas transparentes de quase água e tanta luz?
Tudo. Brigo tanto com meus alunos para que jamais utilizem-se de títulos simples assim, mas queria colocar nesta minha crônica para meus três leitores o título “Tudo” ou, quando muito, “Tudo pra mim”… Tudo, afinal de contas, é a Vida, palavra que escrevo sempre com maiúscula. Ela é a grande Cornucópia de onde fluem amores, laranjas, ódios, assassinatos, cetim, terra, abraços, beijos, pássaros, injunções políticas, bombas, tiros, socos, lutas insanas, afeto, um coração pulsando forte, forte… A Vida.
Tão fácil devanear diante deste teclado enquanto lá fora mata-se, vive-se, morre-se. Enquanto lá fora existem milhares, milhões talvez, de ipês que florescem, que um dia irão florescer, cumprindo um ciclo mágico da vida, cumprindo um momento em que o milagre instala-se, reinstala-se. Este ipê, com suas flores tantas, com seu tronco que se recorta de marcas, é também vida, é também tudo, ou é para os meus olhos o que Ela, abrindo um pouco a janela do intangível, deixa-nos de novo entrever como era antes o Paraíso que perdemos.
Este ipê é o que entrego, então, hoje, aos meus leitores. Um presente como se fosse um carinho. Entrego-o, pois, ao Tudo, assim com letra maiúscula. Entrego-o ao Tudo que é minha própria vida também, ao Tudo que me comove, ao Tudo que me cerca, ao Tudo que me comanda, ao Tudo que mágicas faz em mim e que, felizmente ou não, ninguém vê.
Eis meu ipê. É seu também. É de todos nós.