Sou mais os nossos jegues. E até prefiro chamá-los de jumentos. Se duvidarem, eles têm mais História do que os queridos dromedários, de milenar tradição. Uma espécie de camelo, os dromedários, nem o privilégio tiveram de levar os três Reis Magos a Belém. Ou a Nazaré? Ou a Cafarnaum? Os biógrafos de Jesus ainda divergem sobre a cidade natal do Filho da Virgem, às vésperas do Terceiro Milênio! Ernest Renan, por exemplo, jura que é Nazaré, e não Belém, a cidade onde nasceu o Messias.
Enquanto eles não chegam a um acordo, não seremos hereges se afirmarmos que Jesus pode ter nascido em qualquer dessas três cidades. Uma coisa, porém, não mais se discute: foram os camelos, e não os dromedários que levaram Melchior, Gaspar e Baltasar, Magos do Oriente, á manjedoura sagrada.
Está na Bíblia, que, em duas ocasiões especiais, o bondoso jumento marcou presença na trajetória humana do Filho do Homem. Um jegue, e não um dromedário, ajudou o Menino Deus na sua desesperada fuga para o Egito, livrando-o do sanguinário Herodes. – “Levanta-te, e toma o menino e sua mãe, e foge para o Egito. José sela o jumento, acomoda Maria e o Menino sobre o animal. Toma o bordão. E parte” – assim Plínio Salgado descreve a fuga, com base na revelação do Evangelista Mateus.
No Domingo de Ramos, montado num jumento, Jesus, em marcha triunfal, entrou em Jerusalém, abrindo, oficialmente, a Semana da Paixão. Ainda Plínio: “Pedro e João chegaram, trazendo o jumentinho. Lázaro adornou o animal com um manto encarnado de fina púrpura. Jesus montou” … e foi ao encontro de seus algozes, porque assim estava escrito.
Na literatura profana, principalmente a nordestina, o jegue é cantado em prosa e em poesia. Há uma infinidade de livrinhos de cordel contando fantásticas estórias sobre eles, tornando mais fascinante o folclore que os envolve. Compositores do Nordeste, bons e ruins, têm sempre um verso dedicado ao jegue. E aqui vale lembrar os baiões do Gonzagão. Num deles, o velho Lua chama o jumento de “o herói do sertão”.
O padre Antônio Vieira – não o jesuíta português, mas o festejado escritor cearense -, entregou ao mundo o extraordinário livro intitulado “O Jumento, nosso irmão”. É o que de melhor já se escreveu até hoje sobre o jerico, um animal honesto, humilde e resistente… um símbolo do Nordeste brasileiro.
E o Patativa do Assaré? O aplaudido poeta cearense tem páginas formidáveis sobre o corajoso jegue . No poema “Meu caro jumento”, por exemplo, o vate alencarino, a certa altura, verseja: “Meu caro amigo jumento, / Que tanto sofre e padece, / Seu grande merecimento / Muita gente não conhece”. Para, em seguida, dizer que o jegue “Merecia até morá / Num jardim belo e perfeito / Mode todos visitá / Com amô e com respeito. / Basta a gente maginá / Que de todos animá / Que esta grande terra cria / E tem o nome na históra, / Só você teve a gulora / De carregá o Missia.”
Sobre a fuga do Menino para o Egito, Patativa fez estes versos: “E assim que o anjo avisou, / São José no mesmo instante, / Por ali não procurou / Camelo nem elefante / Mode levá o Deus Menino, / e você tão pequenino / Teve a honra de levá, / Foi quem a viagem fez / Carregando o grande rei / Do céu, da terra e do má.”
Muito bem. Toda essa conversa para, afinal, poder fazer esta pergunta: por que os dromedários, e não os jumentos? Boquiaberto, li numa revista que os dromedários estão invadindo as dunas da orla de Natal. A reportagem mostra turistas, falsos marajás, montados em imponentes dromedários. Circulam, fagueiros, pela bela praia norte-riograndense de Genipabu.
Ao que se sabe, esses belos ruminantes, no Ceará, não emplacaram. Aconteceu no século XIX. Por ordem de Dom Pedro II, catorze dromedários foram levados para a terra de Iracema. Não passaram no teste; morreram todos. É claro que a medicina veterinária, hoje, não permitiria que os ondulados dromedários morressem como morreram seus compatriotas que por aqui estiveram, aí por volta de 1856.
Que me perdoem, pois, os potiguares a jumência (sinônimo de burrada, asnice), mas sou mais os nossos jericos. Dêem-lhes uma saudável ração, água boa e cristalina, atendimento médico adequado, imediato, eficaz, e eles farão bonito, também nas praias do Nordeste. E o melhor: sem lhes adulterar a paisagem que, com certeza, nada tem a ver, por exemplo, com o deserto do Saara. Dromedários? Por quê? O Nordeste é dos jegues.
