Crônica das Palavras Incômodas

ESPERANÇA
Há palavras que irritam, mexem com os nervos do mais comum dos mortais – umas por um motivo, outras sem motivo nenhum, mas o certo é que não conheço ninguém a quem uma ou outra determinada palavra não provoque reações menos agradáveis, nervoso miudinho ou, nos mais calmos, um imperceptível piscar de olhos de contida impaciência.
No que me diz respeito, tenho um baú carregado delas, bem guardado no sótão do meu subconsciente, num quarto mal arejado, sombrio, com um letreiro já desbotado, escrito a marcador grosso, em letras garrafais: ABRIR EM CASO DE URGÊNCIA.
Só em situações desesperadas, numa absoluta e inadiável falta de sinônimos, é que a elas recorro. E fico com o dia estragado quando tal acontece.
É que essas palavras nunca andam sozinhas. Fazem-se acompanhar de outras, parentes próximas e afastadas, falsas parentes ou ligadas por ancestrais laços etimológicos, que teimam em não me sair da cabeça todo santo dia. Colam-se-me na língua como uma escama de peixe, entopem-me a garganta como um osso de frango escondido num croquete mastigado à pressa, nelas tropeço ao virar de cada página do jornal.
Em suma: quando tal sucede é um dia para esquecer.
Seguindo o conselho de um psiquiatra amigo com quem em conversa amena abordei o assunto, resolvi iniciar o processo catártico recomendado: enfrentar definitivamente o problema. O que significa correr vários perigos. O simples ato de abrir o baú exige, por si só, uma boa dose de coragem – nunca se sabe quantas palavras resolvem saltar repentinamente dessa arca de Pandora, quantos parentes decidem trazer com elas, como irão reagir quando me olharem de frente.
Com todas as cautelas entro no quarto bafiento, meto a mão no baú e, bem firme entre o polegar e o indicativo, retiro, meio adormecida, o que me parece ser uma palavra irritante.
Suavemente, fecho a porta à chave e retorno à luz do dia.
Aqui está ela: ESPERANÇA.
Custou-lhe a fixar-se em mim mas, quando o fez, veio com aquela expressão baça, nevoenta…
Não!!! a Esperança, aquela menina meio estrábica, de cabelo oleoso e voz esganiçada, que à viva força queria ser minha namorada quando tínhamos à volta de catorze anos, que teimava em telefonar de cinco em cinco minutos lá para casa (e logo com o meu pai que odiava ouvir o som estridente do telefone), que me fazia andar quilômetros a pé só para não ter que me encontrar com ela na paragem do elétrico?!!!??
Que me perdoem as mulheres com esse nome, caso gostem da opção dos padrinhos junto à pia batismal; e que me entendam, caso a escolha não tenha sido inteiramente do seu agrado. Mas, na verdade, foram meses de sofrimento que só acabaram no regresso das férias grandes quando tive a alegria de saber que ela tinha mudado de cidade.
O pai era escrivão no tribunal e, para ascender na carreira, vira-se obrigado a mudar de cidade.
Foi-se o pai, foi-se ela e… foi um alívio.
Recordo-me vagamente de ter sabido, passados muitos anos, que a Esperança estava viúva, mãe de quatro filhos e possuidora de uma sólida fortuna constituída por terrenos agrícolas e cadernetas de poupança, herança do marido, lavrador abastado e unhas de fome, repentinamente falecido vítima de ataque cardíaco.
Olhem só… um parente… ESPERAR…
Como odeio esperar… não tenho a mínima apetência para esperar, não sei esperar, irrita-me esperar.
Quando me vejo obrigado a esperar por alguém, escolho de preferência um café bem conhecido, abundantemente servido de transportes públicos, com um amplo parque de estacionamento próximo.
Passados que sejam cinco minutos para além da hora marcada, sei que não me resta outra alternativa que não seja abrir o jornal que comprei de propósito para o efeito. Jornal que devoro na ânsia de não sentir o tempo passar; faço as palavras cruzadas, leio os classificados, embrenho-me, renitente, nas notícias desportivas e nos enfadonhos artigos de opinião.
Não adianta. Ao fim meia hora de espera já olhei dezenas de vezes para o relógio, confrontei as horas com o empregado de mesa outras tantas, bebi dois cafés e fumei meio maço de cigarros.
Depois, é o assalto de perguntas emboscadas: seria aquela a hora combinada? De certeza que é aquele o café? E o dia? Seria mesmo esse o dia? Teria acontecido alguma coisa?
Claro que não aconteceu nada… ao fim de cerca de quarenta minutos, um sorriso radiante entra pela porta giratória, olha em volta e… “Estás aí há muito tempo? Nem calculas o que me aconteceu. Um trânsito horroroso, esta cidade está intransitável!!! E arranjar lugar para estacionar o carro? Nem podes imaginar…Um inferno!!!”.
Agarra-me pelo braço e saímos para tratar do assunto que motivara o encontro.
Estacionado no meio do parque, com dezenas de lugares à sua volta, lá está o bendito do carro refletindo os raios de sol e a minha raiva filtrada por um sorriso de circunstância.
Irrita-me esperar, não sei esperar, não tenho a mínima apetência para esperar.
Para a próxima vez, quem vai chegar atrasado sou eu.
E lá está ela novamente, a ESPERANÇA, aquele sorriso irônico, enervante….
Recordam-se daquela mulher que não conseguia ficar grávida?
Como ela desejava ter um filho!!!
Primeiro sozinha. Depois, acompanhada pelo marido, percorreu um imenso calvário de consultórios de afamados ginecologistas.
Salas de espera com revistas esventradas, intermináveis análises, testes de infertilidade a um e a outro.
Até que lhe atiraram com a palavra ESPERANÇA.
Sim, era possível!!!
“Hoje, a medicina, muito particularmente no campo de ginecologia, tem recursos que há muitos anos eram impensáveis. Não existe razão alguma para desesperar. Fecundação “in vitro”? Não, nem pensar nisso. Quer através das análises quer pelos testes cujo resultado tenho na minha frente, tudo me leva a concluir que, com o auxilio deste medicamento que lhes vou receitar, brevemente teremos novidades “. E, sorrindo malicioso, o médico continuou:
“Obviamente que o medicamento não faz tudo. A vossa colaboração é absolutamente imprescindível…”
Nunca uma conta astronômica lhes tinha parecido tão insignificante.
Abandonaram o consultório num alvoroço e o barulho infernal do trânsito ao fim do dia soava-lhes aos ouvidos como um melodioso chilrear de pássaros num bosque verdejante ao pôr do sol.
Foi o fim da tristeza e o recomeço de noites e noites de infatigável colaboração – esperança feita ruído que repercutia para além das paredes do exíguo “sala comum e dois quartos com lugar de garagem”, transformando em insônia as noites até aí tranqüilas dos vizinhos.
O sonho, finalmente, acabou sendo uma realidade – logo na primeira ecografia, as “novidades” anunciadas pelo médico revelaram-se em todo o seu esplendor: duas meninas e dois meninos!!!
E, ao fim de nove meses e três dias, uma cesariana de uma hora e dez minutos com anestesia epidural, lá nasceram os quadrigêmeos que, uma semana mais tarde, encheram de mamadeiras, fraldas descartáveis, pó de talco e desalmada gritaria o diminuto “sala comum e dois quartos com lugar de garagem”.
Ah!, ESPERANÇA!!! Como sabes ser cruel….
Principalmente quando te pões com aquele teu ar de luzinha ao fundo do túnel.
Comigo, a luzinha ao fundo do túnel acaba sempre por ser um comboio lançado a alta velocidade que mal me dá tempo para me agarrar às paredes úmidas da memória, lutando num desespero contra a deslocação de ar que teima em me arrastar para debaixo dos rodados das carruagens de pesadelos em tropel. E é uma eternidade até que o combóio passe.
Depois, sacudo a poeira das idéias e, vacilando, regresso ao início do túnel, àquela bocarra imensa, negra, onde nunca deveria ter entrado.
Recuperadas as forças, corro em direção á ventania, ao temporal, à torrente onde me lanço. Saio de lá lavado, com as idéias frescas e, enquanto me lembrar, não entro em túneis com a esperança de ver a luzinha no fundo do túnel.
Expressão que, aliás, os políticos usam a esmo em ocasiões propícias: crises econômicas, vésperas de eleições, descrédito da ação governativa, enfim, em todas as ocasiões.
E são discursos inflamados que, se não fossem tão repetitivos, seriam autênticas pérolas de demagogia:”.. E ESSA LUZ AO FUNDO DO TÚNEL É O DEALBAR DE UMA NOVA PROSPERIDADE ECONÔMICA, É O NASCER DE UM NOVO DIA PLENO DE PAZ, TRANQÜILIDADE, BEM ESTAR E ALEGRIA NUM MUNDO MELHOR”.
Ninguém se dá ao trabalho de recordar que esse discurso já foi ouvido na campanha anterior, que para haver uma NOVA prosperidade é necessário que tenha havido uma ANTIGA, que tudo não é mais do que uma litania já ouvida demasiadas vezes.
E que todos vão continuar na mesma, com mês a mais e ordenado a menos.
E que o anunciado mundo novo vai ser igual ao velho, com guerras, fome e desespero.
Mas, mesmo assim, batem palmas, num aplauso frenético, querendo acreditar que agora é que é.
Pura autofagia de ilusões.
ESPERANÇA… como podes ser tão irritantemente ilusória.