Eu nunca esperaria sua presença na festa de lançamento de mais um de meus romances…Em meio ao burburinho dos amigos e convidados, lá estava ela, num canto, sozinha, a me observar fixamente, enquanto seu esposo, fazia sucesso numa roda de mulheres, à distância. Fui diretamente até ela, que, à minha aproximação, baixou o olhar. Delicadamente, levantei-lhe o queixo entre as mãos e me vi refletido no oceano que marejava seus olhos, e que de repente se soltaram em forma de duas grossas lágrimas. Meu pensamento voou para tempos longínquos, onde dois jovenzinhos riam-se da vida. Tínhamos planos…Muitos planos. Iríamos conquistar o universo! Iríamos excursionar pelo país das descobertas, vagar pelos vales da esperança, navegar pelo lago da bonança, atravessar os túneis do desespero e, sempre de mãos dadas, iríamos vencer os trechos dos nevoeiros das dúvidas que baixassem sobre nossos caminhos…Eu te ouvia enlevado sobre como sobrepujaríamos as limitações que nos seriam impostas, sobre como riríamos das tentativas das atribulações de se antepor à nossa marcha e sobre como caminharíamos no mesmo passo em direção ao futuro…Como duvidar de tuas certezas? Como não acreditar no brilho dos teus olhos quando me falavas do porvir? E como não beijar teus sorrisos quando as cenas de nossa felicidade se desenhavam em teus lábios? Como esquecer as nuvens de fé refletidas nos teus arroubos de jovialidade? E assim, eu ficava te ouvindo horas a fio, criando eu próprio meu mundo maravilhoso, onde, para qualquer lado que eu olhasse, lá estarias a me servir de farol nessa grande travessia que nos aguardava à frente. Tua voz suave e magnética conduzia-me por caminhos divinamente enfeitados de brilhos e reflexos mágicos, retirando de mim a realidade de dificuldades que nos rodeavam, e, com o poder da chama do ferreiro, derretia as algemas que me limitavam os movimentos, tornando-me livre para sonhar….E assim, liberto dos grilhões de minhas próprias limitações, eu me transformava num poderoso deus – um Zeus – para quem tudo era possível. Maravilhosas auroras nos abençoaram com suas promessas de paz, quando acampávamos em alguma praia selvagem e deserta, na irresponsável ousadia de dois jovens, audazes guerreiros nascidos para ter o mundo aos seus pés. Brisas marinhas nos trouxeram aromas e vislumbres de terras distantes, que um dia, sabíamos, iríamos conhecer. Gansos em migração voando em perfeita formação sobre nossos céus lembravam-nos de que nada seria impossível, enquanto permanecêssemos unidos. Fundidos na mesma fé, na risonha felicidade dos ardores adolescentes, e na certeza absoluta de que nada nos deteria, caminhávamos em passos seguros em direção aos sonhos. Mas o Tempo fluía inexoravelmente, tendo por companhia a Realidade e as Atribulações. Muitas vezes elas me testaram, e em tantas outras, considerando demasiada a missão que assumi, meus passos vacilaram sob o peso de dificuldades mal calculadas. Mas, em cada fraquejar, encontrei tua mão a me apoiar, e teu sorriso a descortinar-me novas esperanças…Entretanto, tinhas pressa! Caminhavas célere em direção às tuas metas, que, supunhas, eram, como sempre foram, também as minhas. Teu passo acelerava-se para além de minha capacidade de segui-los. Já não caminhavas, voavas, como uma flecha, cujo alvo já está traçado desde o momento em que deixa o arco. Lentamente, uma dúvida insinuava-se em meu espírito, e aumentava minha dificuldade em compreender porque não paravas no caminho para admirar as flores que desabrochavam à nossa passagem, porque não diminuías o ritmo de tua marcha, ao ver a brisa brincando com as acácias, ou o banho de areia dos delicados e alegres passarinhos que nos saudavam graciosos. Mais que caminhar, corrias! E fui ficando para trás, até que minhas mãos já não estavam ao alcance das tuas. Então, dúvidas atrozes me assaltaram, e, cada vez que eu tropeçava, meus gemidos de dor perdiam-se na imensidão da estrada vazia à minha frente, onde eu via apenas tuas pegadas apressadas…Ecos de meus gritos ressoavam no infinito, devolvendo minhas queixas em forma de terrível solidão…Até que um dia, numa curva qualquer do caminho, vi outras pegadas ao lado das tuas, e lágrimas amargas desceram por minhas faces marcando o fim de um sonho e o início de minha caminhada solitária. Mas segui avançando, porque lá no fundo do meu coração, tua voz ainda me incitava à vitória, ainda me aplaudia pelos meus pequenos sucessos, e mesmo que fossem ecos do passado, era neles que residia a minha força.
Como o arco que se retesa cuidadosamente e escolhe com calma a direção, eu segui pela vida contando histórias de amor e fazendo versos, os mesmos versos que um dia tanto te inebriaram e dos quais tanto te afastastes, dizendo-me que já não eram úteis. Devo-os às paradas que fiz pelo caminho, aos passeios solitários pelos parques, às juras de amor eterno que fiz à beleza que me rodeava, e que decidi não ignorar…Não sei se cheguei onde tu querias, mas onde quer que eu tenha chegado, cheguei incólume, radiante com a vida e perfumado pela poesia…
Então, rompi o silêncio dolorido.
– E tu, que tens feito? Chegaste onde querias?
– Sim, cheguei, respondeu ela num sussurro, enquanto me olhava com os olhos marejados – mas pedaços de mim ficaram pelo caminho, e já nem mais me reconheço…Eu te tive e te perdi… a única jóia verdadeira que ganhei em toda a minha vida…Agora estou pagando o preço, disse dirigindo um olhar sofrido ao esposo que sorria à distância, rodeado de lindas mulheres.
Então, delicadamente, levantei-lhe o queixo entre as mãos e me vi refletido no oceano que marejava seus olhos, e que de repente se soltaram em forma de duas grossas lágrimas.
