Dizer
sem palavras
amar
sem vírgulas
sofrer
sem sintaxe
viver
sem paréntese
sublinhando
o gesto
acentuando
o tempo
conjugando
o resto.
Ladainha
Para descobrir que depois de tudo,
de tanto tempo passado,
resiste este sentimento
cravado no lado esquerdo do peito
onde teimoso, ainda bate um coração.
– novenas rezadas, promessas feitas
cumpridas ou não
e nada deste amor se acabar.
Para
Morrer e Outros Poemas
MORRER
Morro como morrem
As plumas antes e depois dos carnavais
[E as fantasias morrem com o tempo]
Morro como morrem os machos
Depois de fecundarem as fêmeas
Nos delírios do amor
[de inseto]
Morro como morrem os sonhos depois de realizados
[ou sepultados]
Morro como morrem os rios
Castigados
Rito
Invento
o tempo que permeia
toda essa tênue teia
que chamamos vida.
Chego à grande cordilheira
alheia ao vento
que soprou frio
deixando-me a pele
enrijecida.
Trago
coração cansado
sabendo que o vento
destrói telhados…
O Leite Materno
Mãe!
Você é a essência desta vida humana
que Deus criou como uma obra prima
e a colocou, sagrada, muito acima
de toda criação
Seu corpo é o templo, a catedral da vida
que perpetua toda humanidade
e é de você que emana, na verdade
o processo
Auto-Retrato
Eu sou a noite
sem destino
esbofeteada pelo vento
nesta selva branca.
Noite
que procura caminho
como o faminto
procura o pão.
Noite
que conserva
orgulhosamente
A despeito de tudo,
um punhado de estrelas
em cada mão.
P e r c e p ç õ e s
Vejo…
seu sorriso gostoso
largo e envolvente
Jogos infantis
Ouço…
sua voz murmurante
mansa e delirante
Sussurantes ardis
Toco…
seu corpo viçoso
rijo e contundente
Posturas varonis
Inspiro…
seu cheiro marcante
forte e irradiante
Perfumes viris
Provo…
seu sabor vigoroso
Urbano
O menino de cara suja
ali sentado
mudo.
-!?
Sua boca não diz, mas seus olhos pedem.
Ele olha e apalpa os que passam.
Sua boca, renitente, dentes podres,
rosto pálido mas bonito e os olhos
denunciam que os anjos não morrem.
O menino de cara suja
O Sabido dos Sabidos
A vida sai na frente do tempo.
O tempo nem se importa.
Ela vai ter que parar.
A vida é como o saber.
Quando pensamos que tudo sabemos. . .
Descobrimos, que nada sabemos.
E continuamos a apreender.
Absorver a sabedoria dos mais sábios.
As manhas dos
Dois poemas de Humberto Venuto
PRÉ-HISTÓRIA
Mamãe carregada de vida
rezava nas contas do parto.
O trem no prenúncio dos trilhos
partiu a vida em dois mistérios.
A noite caiu sobre a espera
na casa do décimo filho.
Mamãe se cobriu de alamandas
e o sangue inundou-me a memória.
