Dezembro ainda no ar, de repente me assusta o pouco que falta para o ano 2000.
Dezembro no ar, corisco, anúncio de que mais um ano se foi. Não… este é especial: anuncia que mais um século se foi…
Tento fazer, assim de cabeça, um rápido balanço de tudo quanto aconteceu:
Sem Meias Palavras e outros poetrix
SEM MEIAS PALAVRAS
com jeito sexy
engoles-me confisco
sem meias palavras.
TESÃO ARRETADO
deixo-me levar
por tua presença
sob lençóis, gozo teu imaginário.
MAIS Q’ALÉM
sonho ainda
possuir-te
mesmo que em sonho.
ILIMITE
sussurra-me aos ouvidos teu nome
erguendo-me a natureza em fome
ventos descontroladamente
Poeta de Merda
Poeta de merda!
Poeta da porra,
como diria meu avô,
se ainda nos víssemos.
Tão de merda e
tão da porra,
que preguiçosamente desdenho figurar no papel
a tecitura dos meus poemas mentais.
Se os tivesse escrito…
Nada a fazer.
Foram-se
Não é Apenas Você…
Não é apenas você
Mas tudo que o rodeia
Um par de chinelos, um livro,
Um cinzeiro sujo, uma poesia,
Um mundo que emprenha
Minh’alma a cada dia.
Depois de você
Eu sofrerei todos
Os gestos contidos
Todas as palavras afogadas
E chorarei
O Vento e o Oceano
“Um barco, sem porto, sem rumo, sem vela
Cavalo sem sela
Um bicho solto, um cão sem dono…”
(Zeca Baleiro)
… e nos meus gestos ficaram as marcas de uma solidão arcaica, numa espécie de mímica inventada como disfarce de um ato simbólico de normalidade.
Feitiço do Mar
A maré sobe e desce
As ondas vem e vão
Se lançam forte nas pedras
Jogando espumas cadentes
O sol brioso sorri
De tanto esforço empenhado
Do vento que sopra e ruge
Prá água vencer a rocha
À noite a lua formosa
Com as estrela medita
É
Partida
O ônibus pára num restaurante de beira de estrada. Todos descem com a morosidade nas faces, vapores em profusão soltam-se das chaleiras. Passo pelos balcões até a entrada oposta com outros ônibus embicados em oblíquo, cuja respiração nos interiores embaçava as vidraças. Na hora mais fria
Olhos de Ícaro
No final do vôo, seus olhos o viram de longe, como se esperassem por aquele momento e já soubessem. Um mergulho resoluto e um pouso suave sobre aquele muro de fronteiras, o muro do cemitério.
Que belas árvores! Quanto frescor de sombras… Convidavam-no a compartilhar do merecido repouso,
Cavalgada
o cavalgar é igual
um escalar de montanha
cavalo em movimento
de suor todo se banha
as patas batem nas pedras
tiram fogo e se arranham
arrancam do cavaleiro
a alma a estatura
cavalga como voasse
de sentimento mais solto
de mais não sentir
Solidão Felina
sempre só com a lua
ninguém a noite
arranho meus gritos
pro leite que me falta
da velha gata nova
republica de novo
decreto o estado de fome
óia só o meu mingau
