Não é como nos livros ou no cinema, onde as coisas acontecem a todo momento, numa seqüência rápida e emocionante. Nada de intrigante ocorre quando você levanta de manhã, lava a cara, escova os dentes e engole o seu costumeiro café com leite, pão com manteiga. Vez em quando, um fato diferente: você, ainda sonolento, tenta escovar os dentes com a escova de cabelo, ou então derruba o tubo de pasta dentro do vaso sanitário, ou, pior, adoça o seu café com o sal que ficou na mesa do jantar da noite anterior.
Vai para o trabalho no horário de sempre, enfrenta o trânsito lento, chega atrasado. Nem mesmo o seu carro enguiçou, ou furou um pneu, modificando um pouco essa mesmice diária.
No escritório as coisas se sucedem como de hábito: gente reclamando, serviços atrasados, planos que não se realizam, seu chefe cobrando. O de sempre.
No almoço, uma esperança, talvez você encontre uma barata inteirinha no seu macarrão, ou um dente, de ouro – se for seu dia de sorte – perdido no feijão. Mas, nada. A comidinha de sempre do cardápio programado. Cadê minha barata? Eu exijo a minha barata! Você devia gritar, lutando pelos seus direitos.
A tarde é somente a manhã no avesso, como se o filme fosse passado ao contrário. Nada de novo ou excitante. A tarde abafada escoa lentamente, e sem nenhuma alteração.
Escurece. Você tenso, volta para casa, talvez seja assaltado numa dessas esquinas em que se é obrigado a parar o carro. O bandido com a arma na sua cara e você prazerosamente entregando a sua carteira. Nem peça para ficar com os documentos, vai ser ótimo ter uma enorme amolação para tirar segunda via de tudo.
E você poderá chegar em casa feliz. Um relato espetacular para a mulher e os filhos. A cara sombria do bandido, o dedo no gatilho, pronto para disparar, e você, agradecido pelo momento de emoção, entregando a sua carteira, quase se desculpando por não estar com muito dinheiro. Talvez fosse interessante passar o resto do mês duro, entrando no cheque especial, juros escorchantes.
Mas, qual! Nada acontece. O máximo de novidade é o fato de você quase ter atropelado um cachorro no trajeto de volta. E ainda assim um simples vira-latas, sarnento e manco. Provavelmente será atropelado por alguém com mais sorte do que você. Você chega em casa, guarda o carro na garagem e ouve a costumeira pergunta da sua mulher, lá do fundo da casa: É você? Quem mais podia ser? O Charles Bronson é que não ia aparecer por aqui. Falar nisso, viu o Chico Cuoco? O cara tá no bagaço!
Entra, joga a pasta sobre a mesa e, calado, senta–se para o jantar. Nada a declarar. Engole a salada sem sentir nada e espeta o bife como se fosse assassinar o boi naquele momento. Uma estocada certeira e arrasta-o para o prato, nem sangue escorre. Está bem passado, como sempre. E você odeia carne bem passada. Uma leve possibilidade da empregada ter colocado vidro moído no arroz. Neste mês ela não teve aumento, portanto, motivo não falta. Mas nada acontece…
É como ganhar na sena, só acontece para os outros, distantes, notícia de jornal.
Então você se senta diante da televisão e assiste impassível aos fatos do dia: as tramóias dos políticos, as armações da economia, gente ficando na miséria de uma hora para outra, gente faminta invadindo terras. Um enorme tiroteio em Kosovo, a OTAN errou de novo! Mortos e feridos, execução sumária de um político ladrão na China, e no Iraque tudo era uma festa até há bem pouco tempo, mísseis cruzavam os ares. Nos Estados Unidos franco-atiradores nas sacadas alvejando os transeuntes. Sem falar na Bósnia, onde a vida era emoção do princípio ao fim.
Você não suporta comparar a sua árida existência com aquilo tudo e vai para a cama. Sua mulher com aquele patético pijama de peixinhos não lhe parece nenhuma deusa sensual.
Você apaga a luz e suspira fundo. Antes de fechar os olhos tem uma visão da Demi Moore com um negligé preto, transparente, solto sobre o corpo sem mais nada por baixo. Tão real que você faz um gesto automático, tentando tocá-la. Mas é em vão, ela desaparece lentamente, sorrindo misteriosa…
Você se conforma, mas sente algumas lágrimas frias escorrendo pelo seu rosto no escuro e, finalmente, dorme.
É melhor sonhar …
