O Beijo Que Eu Vi

Não me sai da memória a visão de um beijo que vi hoje. Ora, nunca falo de beijos. Por que? Talvez, uma forma de não condensar alguma dor, ou porque não aprendi a fabricar metáforas que defina um encontro de almas, nem descrever a vertigem solta que esbarra no Eros e assobia um começo que já reside em algum lugar. Amor? Que escorregadia palavra ausente no desvão dos dicionários.
Mas quem beija, cria um dicionário novo. Um dicionário repleto de novos significados. Quem beija pode medir a duração da vida. Sim, com um olhar no mostrador do relógio é possível antever a cara do tempo sorrindo. Mas que negócio de beijo é esse, logo agora?
De fato, a maneira daquele casal se beijarem, chamou-me a atenção. Não parecia amor, parecia ódio… uma fúria! Depois vi o moço com os óculos embaçados olhando a moça ir embora, vi sua esperança de menino amordaçada… de um outro lado a moça olhando para trás.. daí pensei, cá com os meus botões, no que ela poderia estar pensando: “Ele é meu. Eu sou dele. Se errado, meu. Se feio, meu. Se vivo, meu. Se morto, meu. Meu e de mais ninguém. E por isso do mar, do céu, da estrela, da lua, dos sonhos, do sono, do infinito…” Ah, meu Deus, quantas verdades postas assim tão fora de alcance.
Mas isso fui eu quem pensei. E quem pensa em voz alta, torna-se responsável por aquilo que pensou. Engraçado, e nem cheguei a abrir a boca. Quem escreve não diz, quem escreve pensa. Imagine se eu iria dizer isso pra alguém! Mas pensar eu penso. Penso o que eu quero e também o que não quero. Claro que eu não queria pensar naquele beijo. Cada pensamento é uma viagem de olhos vedados. Aí fico tentando ficar no superficial e não percorrer as cavernas de dentro de mim, porém me entrego ao primeiro impulso e quando me dou conta, fui capaz de dirigir o automóvel por um bom tempo sem saber por onde passei. Céus! Ainda bem que não somos punidos pelo nosso silêncio introspectivo. Se assim fosse, pobre de nós, especuladores de pensamentos!
Digo com o pronome no plural, porque não sou a única. Há milhares por aí que ficam pensando o pensamento alheio. Há até os que pré pensam, os que organizam o que vão pensar antes da concretização exata do pensamento e ficam se debatendo entre inúmeras idéias sem saber direito qual delas vão vingar. É mais ou menos como uma fecundação, onde o pensamento concreto é o ventre materno que vai gerar o pensamento mais persistente até que a palavra o materialize.
Que confusão! Eu deveria pensar menos e beijar mais. Quem beija não pensa, pelo menos no exato momento em que está beijando. O beijo é o elemento desestruturador do pensamento. Quem beija fica irracional e age por instinto. O sentir torna-se maior que o pensar e tal é a intensidade que mal se pode respirar… e nessa falta de definição os parceiros se misturam, se confundem… sem contar o profundo hausto (que palavra bonita! Deve existir só pra definição do beijo, para que mais poderia servir?) de ar que atinge o espírito ainda preso ao corpo… por enquanto.