Auto-Estrada 123

Quando olho hoje a auto-estrada 123, já não consigo me lembrar de onde ela vem e para onde vai. De onde ela vem não é tão importante quanto para onde vai, porque é o caminho que não iremos percorrer. Eu e Ana Carolina. Às vezes eu a vejo mover aqueles olhos anoitecidos de uma ponta a outra da estrada; pelo menos uma vez acho que a vi sorrindo, embora seus lábios estivessem selados em pétrea reflexão. Tão linda. Seu corpo era forte, resultado da constituição robusta que herdou do pai; se um dia tivéssemos filhos, acho que seriam altos. Os cabelos tinham quase a cor da poeira que se ergue no horizonte quando a auto-estrada é fustigada pelos ventos. As coisas estão mudadas. A auto-estrada 123 mudou nossas vidas. Depois daquele trágico dia, nunca mais voltei a ouvir a voz dela. Doloroso que as últimas palavras que ela a mim dirigiu tenham sido de acusação; ela, que sempre teve uma natureza tão avessa às contendas que chegava a ceder em quase tudo para evitar que brigássemos. Nunca mereci essa mulher, esta é a verdade. Apertar os olhos todos os dias sobre essa paisagem desolada me fez ver isso. Fraco que sempre fui, habituei-me a dirigir minha ferocidade aos alvos errados. Minha punição deverá ser lembrar para sempre aquele dia.
Tudo começou quando, cansada de minha volubilidade, Ana Carolina decidiu falar o que sentia. E eu me assustei com o poço profundo que havia em seu peito e que se mantivera oculto na sombra de meu egoísmo. A mim era perturbador o simples fato de que ela pudesse sentir. Não parece justo que o ser a quem amamos possa se aventurar em sentimentos que não sejam voltados para nós. Quando uma pessoa passa a pertencer a nós, é porque já pertencemos a ela há muito tempo. Então nossas vozes se elevaram e as palavras se tornaram perigosas. Foi quando a auto-estrada 123 interveio. Peguei as chaves e saí quase correndo, queria fugir. Ana Carolina veio atrás e entrou junto no carro. Quando dei conta de mim, já havíamos abandonado a cidade e estávamos discutindo a mais de cem por hora. Para onde estávamos indo? Nenhum de nós fez a pergunta. Estávamos vindo aqui, a resposta que hoje conhecemos.
A auto-estrada agora está deserta, feriado. Há poucos minutos um carro passou velozmente. As folhas secas que a ventania ergueu trouxeram ao lugar uma momentânea vivacidade. Havia um rosto de moça na janela. Rosto de quem vai completar sua viagem, graças a Deus, não uma daquelas caretas medonhas que algumas vezes se vêem, sorrindo ou mexendo a boca em frases sem valor, felizes sem saber que o Destino está algumas curvas além. Ana Carolina também aprendeu a enxergá-las; acho que apenas pensa que as vê por influência minha. Eu ensinei a ela tudo que existe de ruim em seu coração. Como naquele dia.
Não deu para ver o que nos atingiu, ou o que atingimos. Em minhas lembranças não há ruído algum, apenas uma luz muito forte, embora fosse dia. Depois, o silêncio e a escuridão.
Ana Carolina agora dirige seus olhos misteriosos para o horizonte, muito além das colinas azuladas, que é de onde parecem vir os ventos da tragédia. Gostaria de saber o que ela está pensando. Desde aquele dia nossos olhos esqueceram a língua que antes falavam.
Enquanto estivemos ali, perdi totalmente a noção de tempo. Lembro-me vagamente de gritos, mas não sei se eram de Ana Carolina ou se vinham do carro que atingimos – ou se era eu quem estava gritando. Apesar de não estar totalmente consciente, eu tinha uma vaga noção de nossa situação e de como se tornava urgente a necessidade de mover o corpo, tentar sair dali. Aos poucos fui recuperando o controle de meus pensamentos; meus olhos se abriram dentro de espessa escuridão, o que só fez acentuar o medo até os limites do pânico. A noite tinha caído e ainda estávamos presos ali. Ou pelo menos assim eu supunha, já que não podia me mover. Gritei o nome de Ana Carolina várias vezes. Não houve resposta, mas senti um confortante toque em minha mão, ela estava viva. Oculta em algum lugar daquele labirinto de ferro e fumaça, mas viva. Tentei dizer algo a ela, que se acalmasse, que iríamos sair dali; perguntei se estava ferida. Nenhuma resposta. Ao alcance de um toque, e, no entanto, separados por um abismo. Decidi que era imprescindível sair dali o mais depressa possível e retirar Ana Carolina, seu silêncio era extremamente inquietante. Todavia, por mais que me esforçasse não conseguia me mover um milímetro, muito embora não fosse possível encontrar o ponto onde estivesse preso. Foi nesse momento que senti as primeiras névoas de um pressentimento apavorante. Na escuridão daquela noite de pesadelo, apertei a mão de Ana Carolina como quem se agarra a um amuleto.
Na auto-estrada 123 a noite costuma se encher de presenças misteriosas. Espectros de outros mundos, memórias de outros tempos. O que é mais assustador, um mundo povoado por fantasmas ou uma existência sem crenças? Quando a noite cai e nós ainda estamos aqui, já percebi que o rosto de Ana Carolina se transforma, ela está deixando de ser minha. Dia após dia, desde o fatal dia, que foi o último dos dias.
Enfim, os bombeiros chegaram. Homens de roupa escura deslizavam entre os destroços com estranha familiaridade. Sua calma denunciava um tipo de espírito acostumado com o sangue no asfalto; eles também pertencem à auto-estrada 123. Tentei gritar para eles, mas a voz morreu em minha garganta. Eu queria que Ana Carolina fosse a primeira a ser resgatada, seu silêncio era preocupante, muito embora de tempos a tempos eu sentisse um aperto em minha mão. Os homens circulavam ao redor com seus equipamentos, seus capacetes brilhantes, a estrada foi-se enchendo de rumores. Desconfiei que havia vítimas mais graves no outro carro, já que os bombeiros pareciam se deter por lá bem mais. Talvez houvesse fogo. Meu Deus, que pensamento horripilante, o fogo, o inimigo mais antigo de tudo que é vivo. O tempo foi-se arrastando devagar, graças a Deus eu não sentia dor, não obstante houvesse nisso um indecifrável sinal de alarme.
Quando conheci Ana Carolina ela tinha a metade da idade que tinha no dia do acidente. Os números são misteriosos, às vezes tenho a impressão de que as coisas mais estarrecedoras do universo se revelam por meio de códigos simples. Os números, os astros, as marés. Quem pode compreender os caminhos do universo? Os cientistas, quando se vêem incapazes de decifrar os enigmas da natureza, inventam forças. Força eletromagnética, força gravitacional, força nuclear. A verdadeira força, a única força, esta ninguém ainda encontrou.
Um bombeiro jovem se aproximou. Não tenho idéia de como concluí que era jovem, já que meus olhos não podiam ver, talvez a voz:
– E esses dois aqui? – ele perguntou a alguém atrás dele. – Não é melhor trazer a serra? Parece que o braço dele está preso.
Ele estava se referindo a mim e Ana Carolina.
– Esquece esses dois – respondeu outra voz, parecia estar mastigando alguma coisa. – Vamos primeiro cuidar dos vivos. Esses dois já estão mortos.
Esse ano o movimento foi menor, as pessoas estão viajando menos. Um dia ninguém mais irá viajar, talvez um dia esse lugar fique deserto e a auto-estrada 123 seja finalmente devolvida à natureza. Quando isso acontecer, eu e Ana Carolina ainda estaremos aqui.