Aceitam-se Moças

Ferdinando passou a manhã de domingo vasculhando anúncios de classificados nos jornais. Pensões, hotéis, pousadas, albergues e congêneres eram os títulos que o deixavam em dúvida. Afinal Patrícia, sua única filha, mesmo estudando em Jitaúna, pacata cidade do interior da Bahia, e com parcos recursos, conseguiu aprovação no vestibular de Farmácia na capital. Passadas as comemorações e os abraços, era chegada a hora de conseguir um local onde ela pudesse morar e estudar em Salvador. Nestas horas sentia falta de Silvana, sua mulher, que Deus a tenha. Padeceu muito, até que veio a falecer de tuberculose há 10 anos. Mas soube se desdobrar em pai e mãe e conseguiu criar sua filha.
Ferdinando já estava para desistir da busca de uma moradia para Patrícia, quando o anúncio “Aceitam-se Moças” lhe salta aos olhos. Estranhou a falta de maiores detalhes, porém mesmo assim resolve ligar para checar.
– É verdade que os senhores têm vagas para moças?
– Claro, como é a menina?
– Como assim? – indaga Ferdinando sem entender bem a pergunta.
– Ela é loura, morena, mulata…? – indagou uma voz do outro lado da linha.
– O que isto tem a ver com a vaga para minha filha? Ela passou no vestibular e precisa de um lugar para morar. Este anúncio do jornal é ou não é do senhor? – questionou o intrigado Ferdinando.
Firmo percebeu então o ocorrido. Olhou rapidamente o jornal e constatou que realmente o anúncio que solicitara para ser publicado no setor de “massagistas”, saiu no de “pensionatos”. Percebendo a situação , e curioso por saber como seria aquela garota ingênua do interior, continuou a conversa .
– Claro que este anúncio é meu. Tenho vagas, mas só se for moça de família, pois meu pensionato é muito respeitado.
Ouvindo este comentário, Ferdinando não mais teve dúvida. Garantiu ser sua filha uma garota muito direita, que só sabia estudar. Sem muitas delongas, reservou a vaga.
Sábado seguinte, bem cedinho, Ferdinando embarcou sua filha para Salvador no ônibus das 9 horas, não antes de fazer mil e uma recomendações. Gostaria muito de lhe acompanhar, de entregá-la pessoalmente ao pensionato, mas as dificuldades financeiras o impediam.
A viagem transcorreu sem maiores inconvenientes. Exceto os de costume, como um pneu furado, a bateria do ônibus que necessitou de ser recarregada e intermináveis paradas para entrar e sair passageiros, além das famosas paradas dos motoristas para almoço e cafezinho, que transformaram uma viagem de 5 horas, em uma “via crucis” de 10 horas. Mas nada abalava a alegria e expectativa de Patrícia, que já se imaginava no primeiro dia de aula na faculdade. Este sim, era um sonho que estava prestes a acontecer, e qualquer sacrifício valeria a pena. Em meio a estes pensamentos, adormece com o sacolejar do ônibus, que literalmente bailava na pista, devido às tentativas feitas pelo motorista de se livrar dos buracos. Quando despertou, pôde visualizar as luzes de Salvador.
– Que lindo! – exclamou para si mesma. Na primeira vez que esteve em Salvador, para fazer o vestibular, não pôde prestar atenção às belezas da cidade, pois estava concentrada nas provas. Agora não; tudo era festa. Da rodoviária tomou outro ônibus, que a levaria até Itapuã, endereço onde ficava o pensionato no qual iria morar. Pediu ao cobrador que lhe avisasse quando chegasse próximo. Continuou a admirar a cidade. Sua orla magnífica; o barulho do mar, que se agitava ainda mais no início de março. Olhava o trânsito, o céu estrelado, os arranha-céus iluminados, o vai-e-vem das pessoas nas calçadas. Estava um pouco absorta, quando o condutor lhe informou que havia chegado. Agradeceu e saltou com sua mochila nas costas e notou que ainda estava em frente ao mar. O vento forte, trazido pelas forças das marés, jogavam seus cabelos para trás, dando-lhe uma gostosa sensação de frescor. Andou mais um pouco, checou o número da casa e apertou a campanhia.
– Boa noite, é aqui que mora seu Firmo? – indagou a uma moça bonita, trajando um vestido curtíssimo, que veio abrir a porta.
– Sim, ele está na última sala dos fundos. – falou a garota, mostrando a direção. Patrícia, enquanto andava buscando o escritório de Firmo, notou a música ambiente suave e casais trocando carícias no sofá; outros dançando à penumbra, num ritmo que muitas vezes não se percebia o casal sair do lugar. Notando ter chegado à sala indicada, bateu por três vezes até ouvir um “pode entrar” bem alto.
– Boa noite, sou a Patrícia, de Jitaúna, lembra-se? Meu pai conversou com o senhor por telefone, a respeito da vaga para moças…
Firmo, que calculava num pequeno caderno preto a féria daquela noite, parou repentinamente e se pôs a admirar aquela figura prostrada à sua frente, com uma beleza incomum, mais parecendo uma deusa erótica do Olimpo. Com a experiência de quem lidava com garotas há mais de 15 anos, percebeu cada detalhe daquele corpinho de pouco mais de 17 anos. Pernas bem roliças, recobertas por fina lanugem e curvas bem feitas sob o vestido estampado; os bonitos seios, que se insinuavam pelo vestido apertado, deixando se ver os mamilos, que de tão proeminentes, mais pareciam tentar furar aquele tecido fino que os cobriam. Os cabelos negros e sedosos, davam àquele rostinho angelical um ar de mistério e sedução. Emoldurando este quadro de sensualidade, estava toda a pureza de uma jovem interiorana, virgem, com certeza, a lhe perguntar sobre uma vaga para moças.
– Claro, Patrícia… Como poderia me esquecer? E seu pai, como está? Fez boa viagem? Sente-se, por favor… – Firmo mostra-se um pouco confuso, enquanto indica uma poltrona que ficava em sua frente.
– A viagem foi boa. Um pouco demorada, mas enfim, cheguei. Pelo visto está havendo uma festa aqui hoje… – comenta Patrícia.
– É… é aniversário de Cristina, uma das meninas que moram aqui… Sua vaga está confirmada. Você ficará no último quarto do primeiro andar. Aguarde um pouco, enquanto vou providenciar que o arrumem.
Firmo sobe a escada que dá acesso ao primeiro pavimento. Encontra Cristina, que descia com um cliente, e a chama em particular.
– Cristina, preciso de sua ajuda. Estou recebendo Patrícia, uma sobrinha do interior, que vai passar uns dias comigo. Por favor, não quero que ela fique sabendo que isto aqui é um bordel. Ela pensa que sou proprietário de um pensionato para moças e quero que avise às outras meninas. Vão dispensando os clientes bem educadamente. Depois lhe conto mais detalhes. E arrume meu quarto para ela.
Patrícia se acomodou rapidamente em seus aposentos e confessou para si mesma que estava espantada com a receptividade que teve. Tirou a roupa e dirigia-se para o banheiro, envolta numa toalha, quando percebeu a porta se abrir.
– E então, está gostando do quarto? Perguntou Firmo, adentrando o aposento, enquanto se deliciava com a visão seminua de sua nova inquilina.
– Sim… Claro… Eu não notei que havia deixado a porta do quarto aberta.
– Não se preocupe. Estas trancas estão sempre com defeito. Mas aqui nós todos somos como uma grande família. Você vai se acostumar. Está precisando de alguma coisa?
– Não. Está tudo bem. Só vou tomar um banho. Estou exausta da viagem.
– Que tal darmos uma voltinha mais tarde, para você conhecer os arredores? – sugeriu Firmo, quase não resistindo aos encantos de Patrícia.
– Não sei… Estou tão cansada, que meu corpo só está pedindo cama.- respondeu Patrícia.
– Pense um pouco. Tome seu banho e depois se resolver, me procure no escritório. – Finalizou Firmo, enquanto se retirava do quarto. Ele deixa o quarto de Patrícia e adentra em pensamentos mil. Quando fingiu ser dono de pensionato ao telefone, o fez primeiro por pura brincadeira. Depois, confessa para si mesmo, pensou como empresário. Trazendo uma menina virgem do interior, poderia ganhar muito dinheiro, oferecendo-a a clientes muito especiais. Mas agora a realidade era outra. Estava completamente apaixonado pela pureza e magia da menina.
Patrícia se deliciava com o banho quente e quase que podia sentir cada gota daquela água a deslizar por seu corpo. Lavou os cabelos com bastante xampu e cobriu o corpo inteiro com espuma. Pela primeira vez tomou banho de banheira, e brincava com as espumas que se formavam por sobre a água. Pensava em seu Firmo. Estranhou a forma tão calorosa como foi recebida. Notou que ela despertava algum interesse nele. E ele também era muito bonito, pensou. “Será que ele é solteiro?” Provavelmente era desquitado, pois já aparentava seus 45 anos, e todo homem que conhecia desta faixa etária era casado, viúvo ou desquitado”. Será que deveria sair com ele? Não, era mais prudente ir dormir. Afinal estava muito cansada e precisava repousar um pouco. Além do mais, na manhã seguinte precisava acordar cedo para a matrícula na faculdade” – pensou. Já se dirigia para a cama, quando mais uma vez viu a porta se abrir.
– Estou pronto para irmos à Kalamazoo, a mais nova atração da cidade.- bradou o entusiasmado Firmo. Kalamazoo era uma boate muito bem freqüentada na noite de Salvador.
– Mas eu estava me preparando para dormir… – Patrícia tenta se desvencilhar do convite.
– Você terá o resto do ano para dormir. Hoje temos que comemorar sua chegada a Salvador. Vamos à noite, pois a noite é uma criança, e precisamos brincar com ela, – cantarolava Firmo – quero vê-la acostumada por aqui o mais rápido possível!
– Patrícia não viu escolha, e em poucos instantes estava num ambiente de luzes, som e agitação, como só havia visto antes em novelas de televisão. Sentaram-se numa mesa reservada. Firmo solicitou bebidas fortes. Em pouco tempo Patrícia perdeu a inibição e aceitou o convite dele para dançar. Ela sentiu os braços fortes de Firmo a envolvendo e deixou-se levar ao som da música.
Firmo parecia enebriado, muito mais pela presença de Patrícia que pela bebida. Percebeu que era correspondido no abraço e deixou suas mãos explorarem aquele corpo macio. Patrícia vestia um longo preto, que desenhava cada curva de seu corpo; Firmo, percebendo uma abertura nas costas do vestido dela, tocou de leve em uma parte dos seus seios, o que a fez enrubescer. Apertou-a ainda mais e deu-lhe um forte e demorado beijo, que o fez viajar no infinito, sem precisar de nave ou roupas espaciais.
Deixando-se levar pelas emoções, os dois, depois de muitos beijos e trocas de carícias, deixaram o ambiente e entraram no carro. Patrícia questionou para onde iam.
– É uma surpresa. Feche os olhos e só os abra quando eu mandar. Patrícia, que já estava meio tonta com as bebidas tomadas, quando se dá conta, vê-se dentro de uma garagem.
– Onde estamos?… – indagou Patrícia.
– Venha comigo… Confie em mim. – Firmo estende a mão para Patrícia que, não se faz de rogada. Sobem uma pequena escada e ela percebe um ambiente meio mágico, sob uma luz azulada; via uma imensa cama redonda envolta por várias colunas e espelhos por todos os lados, incluindo o teto. Nunca tinha visto algo tão bonito, mas percebendo o “clima” do ambiente, questiona-se se não estava indo longe demais.
– Acho melhor irmos embora… – sugeriu Patrícia.
– Deixe de medo bobo. Quero apenas lhe mostrar um pouco das belezas de Salvador… Enquanto fala, toma patrícia mais uma vez pelos braços e deitam-se na cama macia. Trocam mais um longo e molhado beijo, enquanto percebe o bater acelerado do coração dela sob o vestido preto. – Quero que fique à vontade. Tire a roupa… – suplica Firmo, já completamente excitado.
Patrícia demora a acreditar que estava realmente passando por aquilo. Mas deixa-se envolver pelo momento, e, em pé sobre a cama, deixa o longo vestido preto cair-lhe aos pés, deixando à mostra todo aquele visual que deixou Firmo atônito desde o primeiro instante. Apenas uma calcinha de rendas pretas ainda guardava aquele tesouro silvestre. Firmo seguiu o mesmo ritmo e, enquanto assistia àquele inusitado strip-tease, se livrou de toda sua roupa. Passou a beijar cada centímetro do corpo de Patrícia, que de olhos fechados, dava sinais de prazer através de sua respiração que ofegava mais e mais a cada segundo. Firmo, sem perder o compasso do momento, retira suavemente a última lingerie de Patrícia. Seu coração também se descompassa ante visão tão bela. Beija cada detalhe daquele triângulo do prazer e continua sua viagem pelo umbigo, seios, pescoço e termina dando um longo beijo na boca carnuda de Patrícia que, àquela altura dos acontecimentos, deixava-se levar por toda aquela magia. Foi neste clima de paixão e erotismo que Firmo pressentiu que Patrícia estava preparada para entrar no mundo maravilhoso do prazer e possuiu-a com ternura; e, embora fosse esta a primeira vez de Patrícia, ela só soltava gritos de prazer e de satisfação.
Depois desta noite, Firmo mudou radicalmente de vida. Da fama de rei da noite que antes ostentava, até com certo orgulho, passou a ser conhecido como o rei dos pensionatos, pois transformou seu bordel em um conhecido pensionato do bairro, para onde vinham moças de todo o interior do estado. Passou a comandar um pensionato realmente familiar, principalmente depois que nasceu seu primeiro filho com Patrícia, o que lhe mostrou o verdadeiro sentido de ser feliz. Hoje, pode-se ver, nos classificados dos principais jornais da Bahia, seu anúncio “Aceitam-se Moças”. Agora, acertadamente, na seção “Pensionatos”.