Edição nº44 - 22/12/00

Sagração da memória dos mortos

A poesia de Ivan Junqueira (imortal da Academia Brasileira de Letras) se inaugura com o livro "Os Mortos" e se encerra com o livro "Sagração dos Ossos" todos este reunidos num só volume pela Record "Poesia Reunida" 1999 numa construção digna de pensamento e sentimento coordenados para um único ponto: emoção.

A poesia de Ivan Junqueira nos dá essa sensação de catarse, pois ao mesmo tempo em que nos emotiva cria dentro de nós reflexões profundas sobre o existir e como eu já havia disto anteriormente no meu ensaio sobre a poesia de Ivan Junqueira "Ossatura da memória" que "Segundo Albert Camus "Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida, é responder há uma questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois. São apenas jogos; primeiro é necessário responder"., ou seja, para uma questão verdadeiramente existencial não há escapatória e para uma verdadeira poética também não e nos basta ver como no exemplo abaixo do poema "Os Mortos":

 

Os mortos sentam-se à mesa
mas sem tocar na comida;
ora fartos, já não comem
Senão côdeas de infinito.

Quedam-se esquivos, longínquos,
como a escutar o estribilho
do silêncio que desliza
sobre a medula do frio.

Não desvendo, embora lisas,
suas frontes, onde a brisa
tece uma tênue grinalda
de flores que não se explicam.

Nos beirais a lua afia
seu florete de marfim.
(Sob as plumas da neblina,
os mortos estão sorrindo:

um sorriso que, tão tíbio,
não deixa sequer vestígio
de seu traço quebradiço
na concha azul do vazio.)

Quem serão estes assíduos
morros que não se extinguem?
De onde vêm? Por que retinem
sob o pó de meu olvido?

Que se revelem, definam
os motivos de sua vinda.
Ou então que me decifrem
seu desígnio: pergaminho.

Sei de mortos que partiram
quase vivos, entre lírios;
outros sei que, sibilinos,
furtaram-se s despedidas.

Lembro alguns, talvez meninos,
que se foram por equívoco;
e outros mais, algo esquecidos
que de si mesmos se iam.

Mas estes, a que família
de mortos pertenceriam?
A que clã, se não os sinto
visíveis, tampouco extintos?

Ou quem sabe não seriam
mortos de morte, mas sim
de vida: imagens em ruínas
na memória adormecidas.

Mas eles, em seu ladino
concilio, disfarçam, fingem
não me ouvir. E seu enigma
(nevoa) no ar oscila e brinca.

 

 

Neste seu Último livro "Poesia reunida" Ivan Junqueira passa a impressão que passou a vida a defrontrar-se unicamente com a questão existencial, ou melhor, essencial que a dualidade entre nascer e morrer, embora outros grandes poetas sempre o fizeram e continuaram a defrontar-se com esta questão única da poesia, mas em Ivan parece-se que a questão adensa-se como um personagem de si mesmo, pois aqui não há subterfúgios ou personas neste questionamento de ser: Esta ali sagrar-se inteiro até nossos olhos como um ser humano que passa, mas não compreende (apreende) mecanismos do universo.

A poesia de Ivan Junqueira para as más línguas teria uma estrutura parnasiana ou de estilo ornanentório, mas isto eu julgo algo que só possa ser dito por alguém que não saiba ler o que este poeta nos dá em versos como:

 

 

Não desvendo, embora lisas,
suas frontes, onde a brisa
tece uma tênue grinalda
de flores que não se explicam.

O poema que fecha o volume de "Poesia reunida" é "Sagração dos ossos" de seu último livro e não seria um acaso que o primeiro poema se completa com o último poema num uno poético como se pode observar abaixo:

de quem lhes serviu de invólucro
e agora já não se move
entre as tábuas do sarcófago.

Dormem sem túnica ou toga
e, quando muito, um lençol
lhes cobre as partes mais nobres
(as outras quedam-se à mostra,
não dos que estão aqui fora,
mas dos ácidos que os roem
ou do lodo que lhes molha
até a polpa esponjosa).

 

De quem foram tais despojos
tão nulos e sem memória,
tão sinistros quanto inglórios
em seu mutismo hiperbólico?
Onde andaram? Em que solo
deitaram sêmen e prole?

Eric Ponty

[email protected]
Eric Ponty- Poeta e escritor. Colaborador das Revistas Dimensão, Órion, Revista Poesia Para Todos entre outras consta na Antologia Mineira do Século XX de Assis Brasil. Publicou Homo-Imagens E Outros Poemas Apócrifos (Virtual Book´s), Livro Sobre Tudo E Outros Alfarrábios, (Virtual Book´s), Sacerdócio da Poesia (Virtual Book´s). Traduziu Musica de Câmara de James Joyce, Jardim dos Poetas de Leônidas Lamborghini (Virtual Book´s), 20 Poemas de Amor E Uma Canção Desesperada E Outros Poemas de Pablo Neruda(Virtual Book´s). Poemas Escolhidos de Mario Benedetti (no prelo da Virtual Book´s) Escreveu o livro de ensaios A Contemplação Do Belo Adormecido E Um Breviário Para O Tempo (Virtual Book's).