Edição nº61 - 17/08/01

Lamento do pai

Minha filha não morreu... Fugiu, mas ainda sobe as areias do Abaeté sob o sol de sábado para domingo. Minha filha, a mulher, aquela, a mãe, não, fugiu, sim, perto de mim, na palma da mão, no coração, sobre as palhas dos coqueiros. Minha filha traz, aqui, um som macio, carinho lunar, paz. Eu me lembro... "Quando os animais falavam, na arca de Noé." Falarei do pecado? Fico calado. Posso até repetir que o dia está em chamas, chamá-la. "Saia do canto e vá para o centro." "Saia do chão e vá para a cama." "Saia da sala e suma no escuro." Ela some... Mas sei que ela mora onde é... E o que ela está dizendo agora, com voz frágil, não desiste, a minha filha. Já me convenceu de que tudo pode continuar. Não há tempo a perder. Nada a perder. Ela não quer se afastar de onde está e some na madrugada. Sou o homem que desce à lagoa para garimpar vestígios, desenterro tesouros ao sol, lagostas. Sei que minha filha ainda vem a esse lugar, marcas na areia. Cochilo. Ela vem e se vai. Isso me faz bem. Continuo aqui. Eu sou o pai.

Wladimir Cazé
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